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A palavra nuvem chove. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra faca corta. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra cor não destoa. A palavra liberdade nção se prende. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia. Quero não será desisto. Sim nuca jamais será não. Tesão nunca será amizade. Dois não Serpa solidão. Vigésimo é uma palavra bem alta. Carinho é uma palavra que falta. Miséria é uma palavra que sobra.  Existem palavras pequenas, microscópico, partícula, grão, covardia. Existem palavras dia, feijoada, praia, boné. Existem palavras bonitas, madrugada. Toda palavra tem a cara do seu significado. A palavra pela palavra tirando o seu  significado fica estranha. Palavra, palavra, palavra, palavra, palavra... Palavra não diz nada, é só letra e som.

(Adriana Falcão)

 

... Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no voo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma ideia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu...

Pablo Neruda.

 

A palavra tem poderes! Essa é, sem dúvida, uma frase que não pode ser explicada, senão compreendida, através do uso das palavras.

Matéria prima de nossos discursos, objeto de disputas políticas, recursos para expressão de sentimentos, as palavras constituem um universo que nos ajuda a organizar o mundo, definir e negociar significados, produzir sentidos.

As palavras não pertencem a ninguém em particular, mas, ao contrário, elas estão sempre entre nós, partilhadas.Surgem de nossa capacidade – ou necessidade – de nos comunicarmos com o outro. A palavra é um signo, uma articulação entre significado e significante que permite a comunicação entre os membros de uma comunidade. Mas isso é bem menos simples do que pode parecer.

As palavras têm estrutura e história, mas é na condição de mediação entre os sujeitos que elas se realizam. Conhecer as palavras, saber bem utilizá-las, contribui não apenas para o entendimento do contexto no qual estamos inseridos, mas também para expressar sentimentos e pensamentos que colocam o real em movimento.

Assim, as palavras têm poderes. Por elas, definimos o que está certo ou errado, o que é justo ou injusto, o que é aceitável ou não.

Refletir sobre elas é muito importante para todos aqueles que buscam viver de forma significativa no mundo.

“A palavra tem poderes!” Para enfrentar esse problema definimos alguns temas que devem orientar nossas reflexões em cada uma das séries.

No Ensino Fundamental, para o sexto ano, está se propondo uma discussão sobre a estrutura própria das palavras, seus usos e variações em função do movimento próprio das sociedades que reinventam a língua no tempo (neologismos, hibridismos) e no espaço (sotaques, regionalismos); para o sétimo ano, é a palavra pública – aquelas que se fazem presentes nos espaços públicos (nos muros, nas camisetas, nos bonés) o centro de nossas preocupações. O que querem dizer? Que mensagens elas trazem?;para o oitavo ano, nossa proposição vai no sentido de investigar quando as palavras provocam sentimentos ou orientam comportamentos. Assim traduzimos nossa intenção: “Quando a palavra faz rir? Consola? Ofende? Seduz?”; Para o nono ano,são as “cartas e os bilhetes” e a “poesia” que aparecem como objeto de investigação do poder das palavras comunicar sentimentos, ideias, ações.

No Ensino Médio, os primeiros anos ficaram de refletir sobre a palavra e a política: na construção dos discursos que sustentam o poder, nos discursos que questionam o poder e, por fim, no litígio próprio de palavras como liberdade, justiça, igualdade, etc.; no segundo ano, as relações entre as palavras e os sentidos tomam lugar de destaque. Assim, as palavras surgem como (im)possibilidade de narrar acontecimentos, de  resgatar a memória ou de expressar os sonhos e desejos individuais ou coletivos; “Quando as palavras faltam”... Esse e o grande desafio que estamos propondo para o terceiro ano. Refletir sobre essa situação inusitada em que não dispomos – ou não encontramos – nenhuma palavra para traduzir uma, situação, um sentimento, uma significação.

Sucesso! Essa é a palavra que espero tenhamos em nossa empreitada.

Bom trabalho a todos!

 

6º ano: Investigando palavras: a tradição e a tradução impossível das palavras:

 

Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio.

Manoel de Barros

 

O que dizem as palavras?

 

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra”.

                                                                                                               Adriana Falcão

 

Pode parecer uma questão simples ou sem maiores implicações, mas não é. Refletir sobre as palavras que usamos cotidianamente não é tarefa fácil para quem resolve compreender a matéria prima de nossos dizeres, de nossos discursos. Adriana Falcão, brincando com as palavras (os sentidos?) criou uma série de explicações. Para ela, “Solidão é uma ilha com saudade de barco”; ou “Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue”. Pensar acerca das palavras, seus sentidos e contornos, é o desafio que nos colocamos neste projeto.

 

6°A - A formação das palavras e seus usos

 

O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando.

                                                                                                                                                                                                Guimarães Rosa

 

Como se formam as palavras? Cada idioma (língua) traz, em suas palavras, uma história construída ao longo de muitos anos em que se misturaram referências e sentidos para a construção da linguagem. Esse é um processo ininterrupto que produz tudo aquilo com o qual lidamos todos os dias. No caso do Brasil – de nosso idioma brasileiro – as referências das matrizes europeias, indígenas e africanas produziram um arsenal de palavras interessantes que se arranjam diferentemente em função das particularidades de cada lugar. Assim, uma mesma palavra pode designar mais de um sentido, ou vice – versa, quando diversas palavras podem ser utilizadas para expressar um mesmo conteúdo. Investigar a origem de algumas palavras, as apropriações que ocorrem ao longo do tempo e os novos sentidos que derivam dessas apropriações (no radical e fora deles) que torcem os conteúdos e põem a língua em movimento é o objetivo de nosso trabalho.

 

6°B - Neologismos, hibridismos;

O povo é o inventalínguas na malícia da maestria no matreiro
Da maravilha no visgo do improviso tenteando a travessia azeitava o eixo do sol

Circuladô de fulô

 

Não há, nem nunca houve, palavra pura. Todos sabem, ou pelo menos deveriam saber, disso. O período atual coloca culturas em contato dando origem a um arsenal incrível de palavras que, aos poucos, vão sendo apropriadas para nosso acervo. Se não gosto de uma palavra, posso deletá-la de meu vocabulário, mas tenho que criar outras para repô-la. Imexível a língua não é, pois os buzús que circulam por aí carregam muitas gentes, erros, palavras. Manos, Brothers, Reis e Princesas – com ou sem nobreza – dão rolês por aí construindo palavras, deslocando sentidos, produzindo nossa língua. Cada tribo com sua língua se faz presente no espaço público e, pelas palavras – os signos e os sentidos – disputa a construção da cultura, sempre plural. Pensar essas palavras novas e os sentidos que elas (re)criam, deslocam, inventam é fundamental para quem não quiser ficar de fora da história de nosso idioma.

 

6°C - Regionalismo: sotaques, identificações, representações...

 

Oxe cabra da peste...
voltei do nordeste
cheia de pantim...
só porque aprendi uns vuvuvú por aí
mas não soube rala buxo
nem amarra fivela...
pois lá na minha terra
num tem isso não!
Então por favor
num mangue comigo!!
Pois sou teu amigo..
E na maciota vou capar o gato
Sem ficar macambúzio
Pois a vida é um luxo
E um dia sem gastura forrózearei.

 

As palavras estão quase sempre imersas em uma cultura da qual são expressão. Sua sonoridade, ritmo, sentido e significado variam de acordo com quem as usa na fala ou na escrita. Através das palavras, os indivíduos e grupos traduzem impressões, expressam ideias e sentimentos, ou mesmo tecem sentidos para o mundo. Uma mesma palavra pode adquirir sentidos e significados bem diversos a depender da região, das classes sociais, da faixa etária, da orientação política, etc. Isso é apenas uma forma de dizer que os sentidos das palavras estão apenas parcialmente nelas. A língua é viva e não cabe, ou não se restringe, à norma culta das gramáticas – sempre um passinho atrás. Os preconceitos (as vezes a intolerância) da norma culta em conflito com as possibilidades de comunicação da língua solta, particular, viva. Identificar as diferenciações, as metamorfoses, as possibilidades e os (des)entendimentos a partir das diversas situações discursivas é o nosso desafio.

 

7º ano: As palavras muitas vezes cumprem funções de provocar sentimentos, crenças, comportamentos...

Quando a palavra...

7°A - Consola

Todo mundo, em algum momento da vida, ou em vários, diante de um dilema, decepção, tristeza ou desespero, precisou de uma palavra de conforto. Essas palavras podem ser ditas por amigos que querem ver o outro que amam longe do sofrimento; escritas em livros sagrados que ajudam a organizar o mundo em momentos de confusão, ou mesmo de perdição; ou mesmo em livros ou canções que nos confortam pela aproximação de sentimentos ou por ajudarem a produzir sentidos para nossas emoções. Analisar essa dimensão confortante da palavra, quando ela aparece e como ela nos ajuda é o grande desafio de nossa proposta.

 

7°B - Faz rir

O humor é uma possibilidade do uso das palavras que pode variar do entretenimento simples e divertido às críticas mais severas de um sistema político e-ou das convenções morais e éticas de uma sociedade. Ao criar, ou traduzir, personagens e situações “reais”, o humor permite – pela graça – que se desnaturalize certas convenções, hábitos e costumes desafiando criticamente nossa condição humana, individual e coletiva. O “clown” (palhaço) é uma das mais bem acabadas expressões de nossas fraquezas, fragilidades, vergonhas. Por ele, o ridículo emerge e desafia aquilo que parecia comum e trivial, por exemplo, nossos medos, vergonhas, desatinos individuais, ou nossos preconceitos (racismo, sexismo, machismo) nossa incapacidade de lidar com o Outro. O humor surge como que para nos lembrar, embora tenhamos logrado grandes conquistas – no plano material e imaterial – da precariedade de nossa condição humana ou, em certos casos, de seu absurdo.

 

7°C - Ofende

As palavras são usadas também para ofender o Outro compreendido como aquele ou aquilo que não é eu mesmo. Elas, muitas vezes, revelam preconceitos que expressam a dificuldade nossa em lidar com a diferença e, quase sempre, nomeiam negativamente ao outro, negando ao Outro a condição de humanidade na diferença. Nesses casos, a ofensa indica a (in)compreensão da diferença e tenta situar o Outro em uma condição de constrangimento ou vulnerabilidade em relação a mim, ou ao contexto mais geral. Em outros casos, as palavras são utilizadas como reação a uma situação em que os sujeitos não mais podem se entender – quando a condição de comunicação se encerra – e a ofensa parece ser a única saída, ainda que raramente ela possa operar como solução do conflito.

 

7°D - Seduz

As palavras são, sem dúvida alguma, instrumentos importantes de sedução. A palavra sedução se compôe, no latim, pela junção da palavra duco (conduzir por um caminho, guiar) com o prefixo se (afastamento); assim o ato de seduzir resulta de um deslocamento do sujeito na direção de algo, ou alguém, que representa simbolicamente a possibilidade de satisfação de desejos materiais ou imateriais. A sedução é, dessa forma uma promessa “falsa” que se organiza com o intuito de fazer com que os sujeitos abandonem suas lealdades, suas convicções, para trilhar um outro caminho que deverá conduzi-lo a algo maior. Assim opera a paquera ou a propaganda, afinal, como todos sabemos, ela á a alma do negócio. O sujeito seduzido acredita, quase sempre, que seu novo caminho o levará inexoravelmente à plenitude ou à felicidade, pelo menos por um tempo; assim será até que ele perceba a impossibilidade do cumprimento dessa promessa, ou que novas palavras (imagens) sedutoras venham desviar sua atenção.

 

8º ano: A palavra pública: as palavras nas ruas comunicam ideias, manifestam sentimentos, gritam. O que dizem essas palavras? Quem diz o que a partir delas?

 

 

 

Complexidade! Essa talvez seja a palavra mais adequada para designar o período atual, sobretudo para aqueles que experienciam a vida nas grandes cidades. Um turbilhão de crenças, valores, princípios, ideais e ideologias são colocados em um espaço único, que as faz conviver e tecer territórios. Nesse ambiente complexo e contraditório, os indivíduos desenvolvem suas subjetividades e aproximações expressas na linguagem oral, roupas e-ou acessórios através dos quais tornam-se públicas essas identificações. Outras vezes, é no próprio espaço da cidade, nos muros que se quer expressar algo, mandar uma mensagem, cujo sentido nem sempre se reduz ao o que ali encontra-se grafado em pixo ou grafite (a linguagem não verbal). Investigar esse uso público das palavras é o desafio que propomos para a série.

 

8°A - Pixação: ideias em muros

É pixo mesmo, não é grafite!

 anônimo

 

A pixação ou pixo, como querem os pixadores, consiste numa forma de expressão – composta por palavras e símbolos – cuja finalidade é registrar no espaço urbano as marcas de um grupo. Pelo pixo, os diversos grupos marcam a paisagem urbana e se fazem visíveis. Transformam suas crenças, desejos, sonhos, protestos, desacordos, etc. em palavras e símbolos que podem ou não ser compreendidos, mas certamente desapercebidos não passam. Diversos aspectos comparecem ao registro e revelam a potência – maior ou menos de quem ali faz seu registro, por exemplo, nas marcas estão em jogo não apenas a mensagem, mas os riscos envolvidos na grafia (altura, acessibilidade, vigilância, etc.). Pelo pixo, os grupos demarcam os territórios, impôem usos do espaço urbano que que expressam a vontade de certos grupos marcar sua presença e participar da vida pública. Investigar a intenção de comunicação e as formas do pixo é a missão dessa série.

 

8°B - A palavra que carrego: camisetas, bonés, etc.

Desde a década de 60, com a revolução dos costumes impostos pela contracultura, diversas mensagens começaram a ser veiculadas nas roupas, nos corpos, nos acessórios. Marcas como o símbolo da paz (em oposição à guerra do Vietnã), arte pop (como logos de bandas de rock) ou diversas outras possibilidades de se fazer política que, a partir dos movimentos de pelos direitos civis, viu se fragmentar em múltiplas frentes como questões étnicas, do feminismo, de orientação sexual, etc. Cada camiseta ou acessório é um “outdoor” em potencial que pode ser usado para veicular ideais ou projetos políticos, para incentivar o consumo de objetos e ou ideias potencializando o sistema ou, em certos casos, apenas é uma mensagem que se quer tornar pública. Pensar esse repertório e sua importância na comunicação das sociedades contemporâneas é o desafio dessa proposta.

 

9º ano: A palavra que expressa, sem pressa

 

“Uma biblioteca é um laboratório mágico onde vivem muitos espíritos encantados”

Borges

 

9°A - A poesia

 

Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.

 Federico G. Lorca

 

Se há um lugar em que a palavra celebra sua dimensão máxima é na poesia. Nela, a palavra – sua matéria prima – é elevada ao mais alto grau de significação e expressividade e que, combinada com outras palavras, tece ritmos e rimas, expressa sentimentos, compõe ideias. Curto ou longo, com regras precisas ou contra elas, formando desenhos, produzindo métricas, rimas e compondo imagens, tudo é jogo de... Palavras, palavras, palavras. Segundo Umberto Eco, filósofo italiano, o texto poético, muito mais que expressar uma ideia ou sentimento específico, “possibilita diferentes leituras, sem nunca se consumir de todo”. O texto poético é preciso, e aberto para quem escreve e para quem lê. Ela opera como uma revelação, como nos propõe Octávio Paz “A palavra quando é criação desnuda. A primeira virtude da poesia tanto para o poeta como para o leitor é a revelação do ser. A consciência das palavras leva à consciência de si: a conhecer-se e a reconhecer-se”.

 

 9°B - Mensagens, Cartas, Bilhetes

 

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Álvaro de Campos

 

Mensagens, cartas bilhetes são sempre elos entre duas ou mais pessoas que se produzem através das palavras. Uma paixão difícil de assumir vira texto escondido, entregue ao outro pelo melhor amigo no último minuto da escola; uma saudade incrível de alguém que não está presente pode passar com uma simples mensagem de texto que chega no celular; grandes confusões e mal entendidos podem ser resolvidos por cartas – muitas vezes loooongas – nas quais alguém apresenta suas razões, dúvidas ou intenções que não foram devidamente entendidas; um simples bilhete de desculpas, se honesto e bem escrito, pode salvar relações. Ok, tudo bem! Mas é importante dizer que cartas, mensagens ou bilhetes também podem gerar problemas. Deslocados, mal redigidos ou mal lidos, esses textos podem tomar um caminhos inimagináveis provocando conflitos, desentendimentos, desenlaces. Esse entre-lugar do texto escrito é um dos mais fascinantes desafios da comunicação que se estabelece entre cada um de nós e o outro. Seu efeito depende não apenas da escolha das palavras, seu arranjo e composição, mas da situação em que se insere e, claro, a quem se destina.

(referência Pela Janela Nu de Botas)

 

1°ANO - A Palavra e o Poder:

 

1°A - A palavra do poder;

 

Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua “política geral” de verdade, isto é, os tipos de discurso que aceita e faz funcionar como verdadeiros...

M. Foucault

 

As palavras constituem a base da ação política. Através delas, os homens negociam sentidos, constroem consensos, definem seus caminhos. É pelas palavras que a liberdade (mais uma palavra) se constitui como possibilidade, afinal, pode-se dizer que liberdade é a nossa capacidade de inaugurar algo novo, algo imprevisível ou que figurava como impensável em um determinado contexto. A palavra, na política, é também o que legitima os poderes constituídos. Assim, governos, igrejas, empresas e instituições da sociedade civil selecionam palavras, criam frases, produzem <<discursos>> que definem seus caráteres, induzem comportamentos, e-ou criam vínculos com a sociedade. “Ordem e Progresso”, “Ame-o ou deixe-o”, “Deus é fiel”, “Só Jesus Salva!” são apenas alguns exemplos de práticas discursivas daqueles que buscam legitimação social. Compreender como se constroem e se efetivam essas práticas discursivas, e analisar sua importância na produção de identificações com a sociedade é o objetivo central dessa proposta.

 

1°B - A palavra de ordem: questiona!

 

 

 

 

 

 

 

A criação pelos gregos da política e da filosofia é a primeira emergência histórica do projeto de autonomia coletiva e individual. Se quisermos ser livres, devemos fazer nosso nomos. Se quisermos ser livres, ninguém deve poder dizer-nos o que devemos pensar.

(Castoriadis: p. 138).

 

Porque há o direito ao grito.
Então eu grito.

Clarice Lispector

 

Assim como para a manutenção do poder, as palavras também são utilizadas para sua contestação. Em todas as épocas e lugares nos quais um grupo específico se instituiu no poder, movimentos de contra-poder se organizaram para superá-lo (destituí-lo) e têm, no uso da palavra, um dos mais importantes recursos de luta. Mesmo em regimes totalitários em que a censura tenta coibir a imaginação, as palavras – as práticas discursivas – permanecem como um instrumento fundamental de questionamento e crítica. Na arte, nos muros, nas paredes, por todo lado, dá-se um jeito de expressar o contraditório, torcer sentidos, forjar novas possibilidades. Como dizia Leminsky “Em la lucha de classes, todas las armas son buenas, piedras, noches, poemas”.  

 

1°C - O poder das palavras;

 

Somos indivíduos livres e nossa liberdade nos condena a tomarmos decisões durante toda a nossa vida. Não existem valores ou regras eternas, a partir das quais podemos nos guiar. E isto torna mais importantes nossas decisões, nossas escolhas.

J. P. Sartre

 

A liberdade de todos é pressuposto à liberdade de cada um.

K. Marx

 

Sentia que "podia". Fora feita para "libertar". "Libertar" era uma palavra imensa, cheia de mistérios e dores.

Clarice Lispector

 

As palavras são, elas mesmas, campo de disputa política. Não necessariamente a disputa pela aparelho de Estado, mas na definição do que as coisas são. Definir algo (relações, coisas, valores, etc.) como isso ou aquilo, depende da capacidade dos diferentes grupos de se apropriarem das palavras, produzirem discursos, instituir sentidos. A palavra é um signo, e como tal, exerce grande influência na forma pela qual olhamos e enxergamos o mundo. O que é certo ou errado, belo ou feio, admirável ou abominável, justo ou insjusto dependerá sempre dos sentidos sociais negociados pelas palavras no cotidiano de todos os indivíduos e grupos de uma sociedade. Assim, conhecer e cuidar das palavras – matéria prima dos discursos – é uma das mais importantes competências para se viver em sociedade. Investigar alguns sentidos sociais de palavras como Liberdade, Igualdade, Justiça e Cidadania em diferentes contextos históricos e pensa-las no contexto atual consiste em um desafio fundamental para a compreensão e intervenção no mundo contemporâneo.

 

2° ANO - A palavra e os sentidos:

Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.

Tirando isso, não tem sentido.

Paulo Leminsky

 

2°A -    Memórias: a palavra que lembra, inventa;

A memória é uma incursão em experiências vividas que deixa, em cada um de nós, marcas. Essas marcas são permanentemente reconstruídas através de palavras que, apenas em parte, referem-se à complexidade de elementos que compuseram a experiência. As memórias dos indivíduos – de um grupo, ou até de um povo – possuem vazios, zonas sombrias, que são permanentemente preenchidos por palavras, por discursos que tentam organizar o passado, sempre em construção. “Quando se escreve memórias de palavras, os tempos se misturam. O passado não existe, assim como o futuro. O que há é um eu inventando um passado e um futuro, no presente. Que em seguida escapa."* Quando, por alguma razão, uma palavra é deslocada – ou uma nova palavra é inserida – todo o conjunto se transforma e se reinventa.

*Eliane Brum Meus desacontecimentos: a história de minha vida com as palavras. São Paulo, ed LeYa, 2014.

 

2°B - A palavra que inventa, delira, deseja, sonha

Algumas vezes as palavras têm um significado difuso, ambíguo, impreciso. Outras vezes, elas fogem da gramática e simplesmente não significam aquilo que a gramática prevê. Na arte, na loucura, no sonho: as palavras fogem dos dicionários e se tornam um tipo de veículo do desejo, da pulsão, da imaginação, do delírio do sujeito. Assim, "maça" não significa maçã, "mãe" não é mãe, "amor" é outra coisa. Na arte, na loucura, no sonho, a palavra é, na verdade, a voz de quem a diz, é o sujeito explodindo, buscando um signo para não se perder no vácuo. Como no quadro de Magritte, onde é retratado um cachimbo: "isto não é um cachimbo".

 

2°C - A palavra que narra, lembra e cria;

Narrar, segundo Benjamin, é intercambiar experiências; não o que se passa diante dos indivíduos, mas o que nos indivíduos e grupos acontece quando tocados por um evento qualquer, com algo que os surpreende e desloca, que transforma nossa existência no mundo. Narrar é, então, uma tentativa de tradução da experiência pelas palavras, um elo que se produz entre um contexto, um sujeito da experiência – individual ou coletivo - e os outros. Nessa tradução, é importante dizer, as palavras não expressam os fatos, mas sua significação, portanto, sempre submetida a uma perspectiva. Ao narrar, produzimos – em palavras – imagens: imagens do mundo, de nós mesmos; inauguramos algo novo, algo que me situa como ser no mundo, um ser em movimento. Criação.

 

3° Ano - Quando as palavras faltam

*A não explicação neste item não é um equívoco ou uma lacuna, mas a própria proposta.

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